Tinha tudo. Era Música e vivia rodeado por Ela. Diziam que nos 5 anos que passara nos EUA, tinha-A aprendido muito. Diziam também que talvez tivesse ido para aprender, mas saiu de lá ensinando-A.
Vivia feliz, com todos os amigos que desejava e com um leque de alunos que lhe permitia nunca se sentir só ou desinteressado.
Um dia, à porta de casa, antes de entrar, um tipo com mau aspecto caiu-lhe no colo. Vendo-o sangrando de uma das pernas, com uma das mãos ensaguentadas, perguntou-lhe se queres ajuda, amigo? Respondeu que não, não e seguiu correndo. O carro que o levou só deixou para trás as marcas de pneu e uns restos de fumo de escape.
Entrou em casa e não percebeu se foi do sangue, se foi do pedaço de ganga que encontrou no muro, a verdade é que reconheceu no indivíduo, que acabaria por não ajudar, o assaltante do seu intocável e sagrado Estado.
Apressou-se à garagem. Tenho de salvar As Minhas Guitarras. Nenhuma havia sido roubada, mas pelo contrário, curiosamente, estimava que metade da sua colecção de peças escritas por outros tivesse sido levada. Das Suas, mais de 60 por editar, nem o aroma. Não tem problema, Essas estão na minha cabeça. Quem o ouviria tocar no Fórum mais tarde, comprovaria a verdade do seu pensamento.
Sentou-se, pegou numa das Guitarras e tocou O que lhe foi ditado pelo Ar. Chamou-lhe Morte. A mulher voltou a casa, viu a mesma situação, não conseguiu lidar com ela, começaram os problemas entre o casal, o divórcio seguiu-se. Vou partir para onde nunca mais me verás. Pegou em todo o dinheiro que tinha e abriu um ginásio para o irmão, que era toxicodependente. Contou-lhe esta história ao irmão, ofereceu-lhe a chave do ginásio e disse-lhe que ia partir. Porta-te bem, lembra-te do que os nossos Pais nos ensinaram e cura-te duma vez.
Foi para Londres, confirmar o que os amigos lhe tinham dito. Pensava que poderia aprender, queriam que ensinasse. Não quis, tenho medo, esquivou-se. Começou a tocar no metro, as pessoas davam-lhe 25 libras por horas, estimaria ele um dia. Movia-se de estação em estação, fugia da polícia, como pobre. À noite pegava no dinheiro que tinha conseguido juntar (às vezes mais de 200 libras) e antes de recolher ao abrigo que o acolhera, pagava bebidas e comida quente aos seus companheiros da altura (éramos muitos… tantos). Don’t you worry, lads, I’ve had much more and gave much less. Let us drink to our wonderful lives.
Era gentil, um cavalheiro, todos o conheciam e ele adorava o lugar, mas Portugal chamou-o e ele foi. Antes de partir, na última noite, compôs a segunda parte da Morte, e chamou-lhe Renascimento. Dedicou-A aos amigos londrinos e antes de tocar Essa Música sempre indiciaria um pouco desta história. Voltou para a sua cidade natal, mas ainda não se sentia capaz de ensinar, conhecera outra maneira de estar, outro Ar de que anteriormente não tinha consciência.
Desceu para o Sul, guitarra às costas e gravador de seis pistas debaixo do braço. Viveu na rua, novamente, acompanhado por um cão, que chamaria de Sortudo. Um dia encontrou uma casa na montanha, ao passear num dos seus intermináveis fins-de-semana.

Perguntou ao dono quanto é? 75 euros por mês. E por aí ficou, vivia dos frutos que a terra lhe oferecia, bebia água da fonte próxima. Recomeçou o estudo e com isso seguiu-se a vontade de voltar a ensinar. Foi aqui que compôs Atmosfera.
Ensinaria, muito apropriadamente, num local chamado Os artistas. Fumava tabaco de enrolar, tinha uma barba que lhe condizia com a personalidade. Sorria muito, apesar dos dentes tortos e lembrava sempre Sorrio assim porque os feios também têm lugar no Mundo. E sorria novamente cada vez que repetia estas frases. Não vivia na mesma terra que os outros, não era de lá. Tocava guitarra aos grilos e acalmava os animais com melodias, mesmo um cão que uma vez lhe tentou entrar raivoso pela casa adentro.
A última vez que o vi foi numa biblioteca, a tocar ao mesmo tempo que um companheiro declamava poesia. É meu amigo, onde quer que esteja e chama-se Fernando.