Arquivo de Maio, 2008

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A barba

30 Maio, 2008

A sua barba não parava de crescer.

Podia ser que um dia reparassem nela, mas o seu crescimento era tão bem controlado que isso só viria a acontecer muito mais tarde… Foi-na mantendo aparada, nada de notório. Sabia, pelo contrário, tudo o que ainda podia encontrar por detrás da barba, quando todos os outros já o haviam esquecido. Ele conhecia cada poro da sua cara, cada cova, cada marca deixada pelo tempo e pelas doenças.

Pensava em rapá-la, volta e meia, mas não o fazia, agora era sua e já não a queria largar. A sua barba, aquela que os outros conheciam, não era a mesma que ele via ao espelho, em frente da sua cara. A sua barba não era farta, não queria ele que ela fosse reconhecível, mas era sua.

Um dia, sem muito bem perceber porque, pareceu-lhe apropriado aparar mais do que o normal, haveria de voltar a ver aquilo que já sabia se encontrar lá, invisível aos olhos dos outros.

Rapou-a até à base da cara. A sua barba já não era sua, eram recordações que deixava escoar pelo cano do lavatório. Os outros, vendo-o sem a barba, estranharam, não acreditaram que a barba não voltasse. Impacientes, esperaram, auscultaram, julgaram, mas a barba não mais voltou…

A sua barba não mais cresceria.

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mi casa lomo

28 Maio, 2008

Lomo homes DeLuxe oferece-nos a possibilidade de mantermos, online, um registo digital das nossas fotos lomográficas. Por enquanto ainda sem conteúdo, um dia será apropriadamente preenchido: mi casa lomo.

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Esopo: o filho de cervo e a sua mãe

27 Maio, 2008

Certa vez, um jovem cervo conversava com a sua mãe: Mãe, tu és maior que um lobo. E também mais veloz e com chifres poderosos para te defenderes, por que é que então tens tanto medo deles?

A Mãe amargamente sorriu e disse: tudo o que falaste é a mais pura verdade, meu filho, mesmo assim, quando eu escuto um simples ganido de lobo, sinto-me fraca e só penso em correr o mais que puder.

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Esopo: o cão e a sua sombra

27 Maio, 2008

Um cão, que carregava na boca um pedaço de carne, ao cruzar uma ponte sobre um riacho, vê a sua imagem refletida na água. Diante disso, ele logo imagina que se trata de outro cão, com um pedaço de carne maior que o seu.
Então, ele deixa cair no riacho o pedaço que carrega, e ferozmente lança-se sobre o animal refletido na água, para obter o pedaço de carne que julga ser maior que o seu.
Ao agir assim ele perdeu ambos: aquele que tentou obter na água, por se tratar de um simples reflexo, e o seu próprio, uma vez que ao largá-lo nas águas, a corrente levou para longe.

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Esopo: o asno em pele de leão

27 Maio, 2008

Um asno, ao colocar sobre o seu dorso uma pele de leão, passaeava pela floresta divertindo-se com o pavor que causava aos animais que ia encontrando pelo seu caminho.
Por fim encontra uma raposa, e também tenta amedrontá-la, mas a raposa, assim que escuta o som da sua voz, exclama com ironia: eu certamente ter-me-ia assustado, se antes não tivesse escutado o seu zurro.

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Esopo: a raposa e as uvas

27 Maio, 2008

Uma raposa que vinha pela estrada encontrou uma parreira com uvas madurinhas. Passou horas a pular tentando agarrá-las, mas sem qualquer sucesso… Seguiu o seu caminho a murmurar, dizendo que não as queria mesmo, porque estavam verdes. Quando já estava a seguir o seu caminho, um pouco mais à frente, escutou um barulho como se alguma coisa tivesse caído no chão… voltou a correr pensando ser as uvas, mas quando lá chegou, para sua decepção, era apenas uma folha que havia caído da parreira. A raposa decepcionada virou as costas e foi-se embora.

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Ares

25 Maio, 2008

Tinha tudo. Era Música e vivia rodeado por Ela. Diziam que nos 5 anos que passara nos EUA, tinha-A aprendido muito. Diziam também que talvez tivesse ido para aprender, mas saiu de lá ensinando-A.

Vivia feliz, com todos os amigos que desejava e com um leque de alunos que lhe permitia nunca se sentir só ou desinteressado.

Um dia, à porta de casa, antes de entrar, um tipo com mau aspecto caiu-lhe no colo. Vendo-o sangrando de uma das pernas, com uma das mãos ensaguentadas, perguntou-lhe se queres ajuda, amigo? Respondeu que não, não e seguiu correndo. O carro que o levou só deixou para trás as marcas de pneu e uns restos de fumo de escape.

Entrou em casa e não percebeu se foi do sangue, se foi do pedaço de ganga que encontrou no muro, a verdade é que reconheceu no indivíduo, que acabaria por não ajudar, o assaltante do seu intocável e sagrado Estado.

Apressou-se à garagem. Tenho de salvar As Minhas Guitarras. Nenhuma havia sido roubada, mas pelo contrário, curiosamente, estimava que metade da sua colecção de peças escritas por outros tivesse sido levada. Das Suas, mais de 60 por editar, nem o aroma. Não tem problema, Essas estão na minha cabeça. Quem o ouviria tocar no Fórum mais tarde, comprovaria a verdade do seu pensamento.

Sentou-se, pegou numa das Guitarras e tocou O que lhe foi ditado pelo Ar. Chamou-lhe Morte. A mulher voltou a casa, viu a mesma situação, não conseguiu lidar com ela, começaram os problemas entre o casal, o divórcio seguiu-se. Vou partir para onde nunca mais me verás. Pegou em todo o dinheiro que tinha e abriu um ginásio para o irmão, que era toxicodependente. Contou-lhe esta história ao irmão, ofereceu-lhe a chave do ginásio e disse-lhe que ia partir. Porta-te bem, lembra-te do que os nossos Pais nos ensinaram e cura-te duma vez.

Foi para Londres, confirmar o que os amigos lhe tinham dito. Pensava que poderia aprender, queriam que ensinasse. Não quis, tenho medo, esquivou-se. Começou a tocar no metro, as pessoas davam-lhe 25 libras por horas, estimaria ele um dia. Movia-se de estação em estação, fugia da polícia, como pobre. À noite pegava no dinheiro que tinha conseguido juntar (às vezes mais de 200 libras) e antes de recolher ao abrigo que o acolhera, pagava bebidas e comida quente aos seus companheiros da altura (éramos muitos… tantos). Don’t you worry, lads, I’ve had much more and gave much less. Let us drink to our wonderful lives.

Era gentil, um cavalheiro, todos o conheciam e ele adorava o lugar, mas Portugal chamou-o e ele foi. Antes de partir, na última noite, compôs a segunda parte da Morte, e chamou-lhe Renascimento. Dedicou-A aos amigos londrinos e antes de tocar Essa Música sempre indiciaria um pouco desta história. Voltou para a sua cidade natal, mas ainda não se sentia capaz de ensinar, conhecera outra maneira de estar, outro Ar de que anteriormente não tinha consciência.

Desceu para o Sul, guitarra às costas e gravador de seis pistas debaixo do braço. Viveu na rua, novamente, acompanhado por um cão, que chamaria de Sortudo. Um dia encontrou uma casa na montanha, ao passear num dos seus intermináveis fins-de-semana.

Perguntou ao dono quanto é? 75 euros por mês. E por aí ficou, vivia dos frutos que a terra lhe oferecia, bebia água da fonte próxima. Recomeçou o estudo e com isso seguiu-se a vontade de voltar a ensinar. Foi aqui que compôs Atmosfera.

Ensinaria, muito apropriadamente, num local chamado Os artistas. Fumava tabaco de enrolar, tinha uma barba que lhe condizia com a personalidade. Sorria muito, apesar dos dentes tortos e lembrava sempre Sorrio assim porque os feios também têm lugar no Mundo. E sorria novamente cada vez que repetia estas frases. Não vivia na mesma terra que os outros, não era de lá. Tocava guitarra aos grilos e acalmava os animais com melodias, mesmo um cão que uma vez lhe tentou entrar raivoso pela casa adentro.

A última vez que o vi foi numa biblioteca, a tocar ao mesmo tempo que um companheiro declamava poesia. É meu amigo, onde quer que esteja e chama-se Fernando.