Arquivo de Novembro, 2008

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Filme ‘Fight Club’

28 Novembro, 2008

Em 1999, David Fincher realizou Fight Club, um dos melhores filmes desse ano e seguramente, também, um dos melhores dessa década. Baseado no romance homónimo de Chuck Palahniuk, conta a história de um homem, desiludido com a vida que leva e sofrendo de insónias – When you have insomnia, you’re never really asleep… and you’re never really awake -, que conhece um dia um estranho que lhe vai apresentar “um novo estilo de vida”. Hit me

Este seria, obviamente, um possível resumo da obra, mas simples demais e não sendo Fight Club um “simples filme de Hollywood” torna-se imperativo deslindar o presente. E o que se nos apresenta é uma chapada com toda a força em toda a sociedade consumista e o seu modo de vida mecânico, um em que todos participamos: You’re the all-singing, all-dancing crap of the world. É uma descida à anarquia total e uma permanência constante na mesma – Only after disaster can we be resurrected -, culminando num supremo, e bem esperado, final, quando a música dos The Pixies “Where is my mind?” vem mesmo a propósito. Além de tudo que tem de bom, especialmente o argumento e a moral que apresenta, visualmente, o filme é muito estimulante e, filosoficamente, sem dúvida, questiona de modo pertinente a realidade através de provocações constantes e duras – It’s only after you’ve lost everything that you’re free to do anything.

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Participam Edward Norton e Brad Pitt (também Helen Bonham Carter), sendo que ambos fazem dos melhores papéis que alguma vez os vi encarnar. Edward Norton, o narrador, é quem nos guia através de toda a acção, mais do que possamos pensar como, aliás, descobrimos no fim. Representa inicialmente, e aparentemente, um indivíduo bastante normal que participa em reuniões de 12-etapas para diminuir a sua dor, abraçando aqueles que se encontram em fase terminal e cuja sorte é menor que a sua. De um dia para o outro, chega ao prédio onde mora para se deparar com o seu apartamento, onde “armazenava” todos os itens (in)dispensáveis para o seu dia-a-dia – The things you own end up owning you -, em chamas. Comprava tudo no Ikea e trabalhava numa empresa, ironicamente de seguros, onde não iria a lado nenhum (e nós, onde vamos?). Numa viagem de avião, após conhecer Brad Pitt num avião e, posteriormente, travar amizade com este num bar, a sua vida irá mudar-se radicalmente e os seus pensamentos cada vez mais concordarão com aquilo que intimamente pensa. Em completa antítese desta personagem que o narrador encarna, encontra-se Brad Pitt, que interpreta Tyler Durden, um anarquista que vive numa casa abandonada e ganha a vida a vender sabonetes muito pouco convencionais – The best fat for making soap comes from humans. No enredo encontramos também Helen Bonham Cartar, a interpretar Marla Singer, uma maníaco-depressiva viciada em tabado e que vai a reuniões de doentes com cancros da próstata, entre outras, porque o sofrimento dos outros alivia a sua própria dor: ele finge nas reuniões e sabe que o narrador também – If I did have a tumor, I’d name it Marla. Esta personagem pode parecer um pouco secundária – fica-se com a impressão de que não foi suficientemente importante, mas talvez isso se deva a um interpretação menos marcante que a dos protagonistas, apesar do diálogo desta personagem também ser bastante bem construído e suficientemente crítico para ser relevante para a história – This isn’t a real suicide-thing. This is probably one of those cry-for-help things.

Toda a violência da história é completamente suportada pelo excelente argumento e deve ser considerada, de modo algum, gratuita, nem mesmo quando Jack (a única altura é que o narrador tem nome é quando Brad Pitt lhe chama “Jack”) desfigura um jovem adversário no Clube de Combate – I felt like destroying something beautiful. A violência da vida real – quando 200 pessoas morrem em ataques a hotéis em Mumbai ou 80 pessoas morrem em cheias no Brasil – já não nos emociona, porque é que um filme de ficção o faria? Fight Club fala sobre descer, descer muito baixo até encararmos a possibilidade de instaurar uma anarquia com todos os prós e contras que daí advém (lembrar de ler a obra de Chomsky, Proudhon e Locke sobre o assunto).

Um dos ambientes mais relevantes do filme, pois é à volta deste que a história se desenrola e é na acção deste que ela se materializa, é o Clube de Combate, que é, mais do que um Clube, um modo de vida. Os seus membros regem-se por uma série de regras (de bases fascistas) – The first rule of Fight Club is – you do not talk about Fight Club. The second rule of Fight Club is – you DO NOT talk about Fight Club – e através de uma criteriosa (?) selecção vão lentamente formando um exército com o objectivo de espalhar o terror e “ensinar o povo, melhorando a sua forma de vida, mesmo que isso vá de encontro aos objectivos individuais de uns quantos sujeitos”. Eventualmente, o narrador, líder inicial (com a ajuda de Tyler Durden) do grupo que começou numa cave de bar, perde o controlo do mesmo – Fight Club was the beginning, now it’s moved out of the basement, it’s called Project Mayhem – e é aqui que a agitação do filme mostra a suprema arte da David Fincher enquanto realizador (que nega qualquer relação do filme com o regime político de Hitler dos anos de 1930/1940). Encontramo-nos perto do fim – I am Jack’s smirking revenge – e este pode ser simplesmente descrito como “maravilhoso”. A reviravolta de acontecimentos a que nesta fase assistimos leva-nos ainda mais a apreciar o filme num segundo visionamento.

Numa palavra, memorável: um passeio de montanha russa – alguns vomitam e não querem andar de novo, outros esperam que o passeio recomece…

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Morre Miriam Makeba

27 Novembro, 2008

Faz agora dezasseis ou dezassete dias que a rádio me informou da morte de Miriam Makeba. Como Dinis Machado, esta personagem da minha realidade acompanhou-me desde tenra idade, envolta numa espécie de névoa mística de senhora que teria aprendido a falar inglês para cantar uma música de que muito gostaria, que vivia numa aldeia pequena rodeada de deserto e árvores secas ou que nunca calçava sapatos. A Miriam Makeba revelou ser tudo o que eu sonhava dela e mais…

Com um nó grande na garganta (quase tanto como o que se formou no dia em que Carlos Paredes nos deixou), tive de me conformar com este triste facto: a rádio não mentia, repetiria a televisão mais tarde. E nesse dia, mais do que nos outros, procurei-a em todos os locais por onde passei. Miriam Makeba foi uma das grandes vozes deste planeta tanto pelo seu contributo para a música do mundo como pelo seu activismo de muitos anos. E agora não voltará a cantar!

Lembro-me de a ouvir quase desde sempre, porque juntamente com o Burt Kaempfert (porque isto me fez sentido ofereci uma vez um duo-CD Makeba/Kaempfert num Natal) faziam parte duma cassete que rodou durante anos a fio num dos carros antigos que tivemos. Miriam Makeba cantou também em várias línguas e preocupou-se muito com o tema da humanidade e dos problemas causados por e sobre esta.

Resta-me agora uma cassete no carro, com seis ou sete faixas soltas suas, todas de uma beleza extrema. Nunca comprei nenhuma das suas músicas para mim, mas ofereci-as algumas vezes.

Quando os gigantes da nossa infância morrem sentimos que perdemos algo de muito pessoal mesmo que essas pessoas tenham sempre sido distantes. A sua memória é perpetuada em todo o trabalho com que contribuiu tudo o que conseguiu para melhorar a vida neste planeta (e isto por si só já é grande tarefa a louvar). Longa vida a Miriam Makeba.

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O espaço e o infinito

27 Novembro, 2008

Fico os primeiros 50 segundos de The Precious Mountain dos Quickspace a pensar sobre o que me atrairá este álbum. Ao fim do anunciar harmónico, com uma harmónica, segue-se a campainha de uma bicicleta. Mistura quase perfeita, simples, perfeita!, não fosse a repetição até à exaustão daquilo que parecem ser duas guitarras e um baixo algo maravilhosamente bem construído.

Juro, nada mais do que 10 acordes durante 1:30/2:00 e no entanto, o céu. A música é assim, inexplicável, uma das formas de arte mais inexplicável, inconcebível como esta mistura de sons nos consegue desequilibrar a química normal de modo a criar uma emoção tão forte como contentamento, desespero, choro e riso, estas e outras tantas…

Quando um artista sem explicação o consegue fazer sem nos explicar nada, isso é magia (os Queen perceberam-no a tempo). A voz só entra 3:40 após o início da faixa e que bem que se encaixa nesta, canta simplesmente um interminável Haaaaaaaaaaa, acompanhada ainda das guitarras, do baixo e novamento do que parece ser um Hoooooo ou HaaaaaaHiiiiiii da harmónica, qual remeniscência de western spaghetti de Sergio Leone.

Todos os instrumentos param para voltar a simples e singela guitarra, mais uns segundos do loop tão bem conseguido. Os Quickspace não são conhecidos, Tom Cullinan nunca o quis, assim o escolheu. Com o nome Dougal Reed gravou agora um álbum completo de Fleetwood Mac numa versão muito sua, diz que porque a versão que tinha era vinil, deu tudo o que podia dar e que a loja de discos ficava muito longe: teve de ser, nada como nada!

A voz confunde-se agora com um instrumento, será um violino ou uma voz? Certamente um som angelical, algo simplesmente muito bem construído. O som de Quickspace é original, talvez tanto que nunca se tendo conseguindo encaixar perfeitamente em qualquer uma dessas categorias que se inventam para classificar discos em intermináveis discoteca e isso tenha contribuído para a sua misteriosa existência.

Facto é que não gravam juntos faz muito tempo e que os seus discos (especialmente este EP que toca) se tornaram raridades caras e difíceis. O que tenho tem pouco mais de 24 minutos e custou 24 euros a obter, mas realmente nenhum melhor euro pago por minuto que todos estes.

Em apoteóse de chegada à montanha preciosa (quem conhece bem o seu trabalho parece que simplesmente andaram a explorar dois ou três caminhos, quando na verdade os que oferecem são infinitos) tudo é muito mais sonoro, tudo é mais claro mas também mais elaborado, o som passa a ser um, o pensamento de o inventar também.

Quando se usa a morte de alguém como pretexto para se sair a correr, ou se ouve o azul de Ennio (sim, a referência não é pouco óbvia) sabe-se que o que se pretendeu fazer com esta obra foi atingido e foi-se ainda mais além (será que têm noção do que provocam nas pessoas que os ouvem?). Este álbum é uma pérola, perdida entre milhares de outros que nunca chegam ao mainstream e por isso privam o grande público de possibilidades infinitas de qualidade.

Ouçam, ouçam de novo e procurem o fio condutor no resto da história, em todos os outros álbuns, desde o tempo dos Th’ Faith Healers. Os Quickspace podem não vir a tocar para nós nos tempos próximos (alguns felizes rumores falam do seu reaparecimento, mas não passam de rumores na verdade!) mas o que fizeram já entretém durante tempo suficiente para se construir um universo musical muito pessoal. O meu, entretanto, fez-se e faz-se com Quickspace, Silver Mt. Zion, Tortoise, Godspeed You! Black Emperor, Hrsta, Mogwai, Sigur Ros, Kraftwerk, Rachel’s e Dirty Three…

O resto, como se diz por aí, ainda faz parte da história por escrever!…

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Menos um

25 Novembro, 2008

Fecha a porta às dez da manhã, sai de casa, deixando-a sozinha a tratar do pó, dos bichos da madeira, da cama por fazer e das janelas que dão para a rua. O cheiro do leite quente ainda se encontra colado à sua roupa. Muito mais tarde do que o normal a esta hora. Não porque não tivesse vontade de acordar, mas porque afinal a melhor maneira de compensar horas extraordinárias, pensa, é trabalhando menos.

Graniza lá fora. O carro a trezentos metros debaixo dos plátanos: uma aventura! Interdit de laisser les sacs poubelles. Le bac a été supprimé, junto à porta do prédio… curioso: pedem-lhe para não produzir lixo!

De casaco em cima duma camisa de malha em cima do corpo, segue fumando o ar frio até ao carro, passando pelo Red Lyon, onde se lembra das noites aí passadas a jogar bilhar, agora tão distantes também. Dentro do carro, a chave roda para o ignitar, espera dez segundos, soluço soluço, arranque, ainda mais um. A rádio francesa a cantar ao fundo – fala-se de política. O caminho é feito sobre uma estrada muito mal construída onde o alcatrão por vezes encontra espaço para se aconchegar entre os buracos e ainda são doze quilómetros.

Na Turbomeca, nada de diferente: os Pirenéus ao longe, afundados na neve, a porta rotativa para entrar com o cartão magnético na mão, o parque de estacionamento a abarrotar de viaturas, todas sujas. Cumprimenta as pessoas do costume com o cumprimento do costume, como é costume. Toma-se o café Mabula do costume. O teclado do costume começa a parecer-lhe uma tosta mista, mas sem queijo nem fiambre, só com a manteiga e o cheiro. E como é costume (dez e vinte-e-dois—onze—metade do dia—uma—duas—três—quatro—chá—seis—sete—dezanove e trinta e dois) trabalha nove horas como manda o contrato. Volta para casa, onde lhe esperam as lentilhas e o quinoa. Hoje há iogurte no seu menu.

A Internet é a sua porta para o resto do mundo, visto que todos se escondem debaixo dos lençóis, perto da lareira ou do aquecedor, neste que é um dia especial entre todos os outros. Batem onze da noite e o Weather Update anunciar a passagem abaixo>>dos>>zzzzzzzzzzzzero. Menos um, a primeira temperatura negativa deste ano. O aquecedor… estragado! Respira, por preferência, o frio dentro de casa, fuma o mesmo quase como um cigarro, denso, a gripe agrossando-lhe a voz. As suas mãos só conseguem escrevinhar estas palavras, já e adivinha-se um banho quente em breve, os pés infinitamente longe e sozinhos.

A rádio francesa faz toda a companhia, fala de XX e YY, de teorias de política e de romances que ninguém lê, ajuda a passar o tempo, aprendendo qualquer coisa.

Bem vindo o Inverno e bem vindo o frio, diz. Já tinha chegado à Europa há algum tempo, agora aqui mais perto do frio. Bem vindo, cumprimenta o frio Francês, já sentia a tua falta, sete meses depois de me ter despedido de ti. Amanhã, vai acompanhar a chuva durante quinze minutos até chegar a casa do Jean Claude… segundo as previsões [o Weather Update diz que o vento é de três quilómetros por hora e a temperatura é menos dois]

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Here comes the sun

24 Novembro, 2008

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Blogs – OST

2 Novembro, 2008

Visto que considero ter uma certa obsessão em preencher espaços vazios, em contornar os que ainda não o estão e em colocar ordem onde me parece ela ainda não existir (tudo isto dentro do muito pequeno perímetro do meu universo pessoal), antes de abrir o Firefox e clicar no Brief – o meu programa de eleição para agregação de notícias/escritos vulgos artigos, ligo também o last.fm para continuar a ouvir os que já conheço e para descobrir os que ainda não conheço. A pouco e pouco vou delineando a banda sonora original dos blogs que leio, o meu filme pessoal avança mais alguns frames. Estranho que me possa emocionar com este ou aquele escrito e penso se não se encontrará isto ligado à música que tenho a tocar no entretanto. Como não me é possível objectivamente desligar a música e voltar atrás para ver o que sentiria se (se já passei pela experiência estou marcado e modificado por ela) continuo a deixar o last.fm tocar o que quer/eu quero e continuo a ler os escritos dos outros. Fazem parte do muito pequeno perímetro do meu universo pessoal.

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Flores

2 Novembro, 2008

O jasmim é a Luz. Será que a sua explosão também?