Em 1999, David Fincher realizou Fight Club, um dos melhores filmes desse ano e seguramente, também, um dos melhores dessa década. Baseado no romance homónimo de Chuck Palahniuk, conta a história de um homem, desiludido com a vida que leva e sofrendo de insónias – When you have insomnia, you’re never really asleep… and you’re never really awake -, que conhece um dia um estranho que lhe vai apresentar “um novo estilo de vida”. Hit me…
Este seria, obviamente, um possível resumo da obra, mas simples demais e não sendo Fight Club um “simples filme de Hollywood” torna-se imperativo deslindar o presente. E o que se nos apresenta é uma chapada com toda a força em toda a sociedade consumista e o seu modo de vida mecânico, um em que todos participamos: You’re the all-singing, all-dancing crap of the world. É uma descida à anarquia total e uma permanência constante na mesma – Only after disaster can we be resurrected -, culminando num supremo, e bem esperado, final, quando a música dos The Pixies “Where is my mind?” vem mesmo a propósito. Além de tudo que tem de bom, especialmente o argumento e a moral que apresenta, visualmente, o filme é muito estimulante e, filosoficamente, sem dúvida, questiona de modo pertinente a realidade através de provocações constantes e duras – It’s only after you’ve lost everything that you’re free to do anything.
Participam Edward Norton e Brad Pitt (também Helen Bonham Carter), sendo que ambos fazem dos melhores papéis que alguma vez os vi encarnar. Edward Norton, o narrador, é quem nos guia através de toda a acção, mais do que possamos pensar como, aliás, descobrimos no fim. Representa inicialmente, e aparentemente, um indivíduo bastante normal que participa em reuniões de 12-etapas para diminuir a sua dor, abraçando aqueles que se encontram em fase terminal e cuja sorte é menor que a sua. De um dia para o outro, chega ao prédio onde mora para se deparar com o seu apartamento, onde “armazenava” todos os itens (in)dispensáveis para o seu dia-a-dia – The things you own end up owning you -, em chamas. Comprava tudo no Ikea e trabalhava numa empresa, ironicamente de seguros, onde não iria a lado nenhum (e nós, onde vamos?). Numa viagem de avião, após conhecer Brad Pitt num avião e, posteriormente, travar amizade com este num bar, a sua vida irá mudar-se radicalmente e os seus pensamentos cada vez mais concordarão com aquilo que intimamente pensa. Em completa antítese desta personagem que o narrador encarna, encontra-se Brad Pitt, que interpreta Tyler Durden, um anarquista que vive numa casa abandonada e ganha a vida a vender sabonetes muito pouco convencionais – The best fat for making soap comes from humans. No enredo encontramos também Helen Bonham Cartar, a interpretar Marla Singer, uma maníaco-depressiva viciada em tabado e que vai a reuniões de doentes com cancros da próstata, entre outras, porque o sofrimento dos outros alivia a sua própria dor: ele finge nas reuniões e sabe que o narrador também – If I did have a tumor, I’d name it Marla. Esta personagem pode parecer um pouco secundária – fica-se com a impressão de que não foi suficientemente importante, mas talvez isso se deva a um interpretação menos marcante que a dos protagonistas, apesar do diálogo desta personagem também ser bastante bem construído e suficientemente crítico para ser relevante para a história – This isn’t a real suicide-thing. This is probably one of those cry-for-help things.
Toda a violência da história é completamente suportada pelo excelente argumento e deve ser considerada, de modo algum, gratuita, nem mesmo quando Jack (a única altura é que o narrador tem nome é quando Brad Pitt lhe chama “Jack”) desfigura um jovem adversário no Clube de Combate – I felt like destroying something beautiful. A violência da vida real – quando 200 pessoas morrem em ataques a hotéis em Mumbai ou 80 pessoas morrem em cheias no Brasil – já não nos emociona, porque é que um filme de ficção o faria? Fight Club fala sobre descer, descer muito baixo até encararmos a possibilidade de instaurar uma anarquia com todos os prós e contras que daí advém (lembrar de ler a obra de Chomsky, Proudhon e Locke sobre o assunto).
Um dos ambientes mais relevantes do filme, pois é à volta deste que a história se desenrola e é na acção deste que ela se materializa, é o Clube de Combate, que é, mais do que um Clube, um modo de vida. Os seus membros regem-se por uma série de regras (de bases fascistas) – The first rule of Fight Club is – you do not talk about Fight Club. The second rule of Fight Club is – you DO NOT talk about Fight Club – e através de uma criteriosa (?) selecção vão lentamente formando um exército com o objectivo de espalhar o terror e “ensinar o povo, melhorando a sua forma de vida, mesmo que isso vá de encontro aos objectivos individuais de uns quantos sujeitos”. Eventualmente, o narrador, líder inicial (com a ajuda de Tyler Durden) do grupo que começou numa cave de bar, perde o controlo do mesmo – Fight Club was the beginning, now it’s moved out of the basement, it’s called Project Mayhem – e é aqui que a agitação do filme mostra a suprema arte da David Fincher enquanto realizador (que nega qualquer relação do filme com o regime político de Hitler dos anos de 1930/1940). Encontramo-nos perto do fim – I am Jack’s smirking revenge – e este pode ser simplesmente descrito como “maravilhoso”. A reviravolta de acontecimentos a que nesta fase assistimos leva-nos ainda mais a apreciar o filme num segundo visionamento.
Numa palavra, memorável: um passeio de montanha russa – alguns vomitam e não querem andar de novo, outros esperam que o passeio recomece…




