
Arquivo de Dezembro, 2008

Filme ‘Stalker’
3 Dezembro, 2008Stalker (1979), de Andrei Tarkovsky, é um dos filmes mais genialmente filmados, coreografados, estudados, produzidos e, de uma maneira geral, criados, de todos os tempos. Através do perfeito uso das cores e da câmara de filmar, assim como de diálogos meticulosamente preparados e de uma história que nada deixa a desejar, é uma daquelas obras que nos deixa constantemente na expectativa, sem mesmo no fim revelar completamente o seu conteúdo; e é esta a verdadeira essência da intenção do autor: meditemos!
Imergindo na Zona, uma região misteriosa e perigosa onde apenas os stalkers se ousam aventurar, conhecemos três personagens: um stalker, um escritor e um cientista, cada qual perfeitamente definido como personagem psicológica e com uma visão muito marcada e pessoal do que o rodeia. Será pouco mais do que estes personagens e o ambiente que os rodeia que acompanharemos desde a nossa entrada na zona até ao local onde todos queremos chegar. A motivação para tal? Supostamente terá caído um meteorito na Terra, cerca de 20 anos antes da data (não especificada) em que se passa a acção do filme. Este meteorito terá dizimado uma zona habitacional Russa, que passou esta a ser conhecida como a Zona. Várias histórias suportam a ideia de que existe uma sala na Zona que realiza o desejo mais íntimo de cada um.
Temendo o uso indevido dessa maravilha e o perigo que daí podia advir, o exército é prontamente localizado na área para garantir a sua segurança. No entanto, a maioria dos stalkers experientes consegue, recorrentemente, frustrar esta segurança e levar os seus visitantes à misteriosa zona. O que acompanhamos no filme havia sido treinado por um outro grande stalker que entrou na zona com o seu irmão e voltou sozinho e milionário, para se suicidar uma semana depois. Nunca é explicado porquê; devemos construir a nossa visão da história dentro da história. Através de um perigosa e longa viagem, que somos também levados a fazer (a sequência do transporte até à zona é de uma mestria incomparável) somos enfrentados com os nossos próprios desejos e medos: será que havia algum desejo que poderíamos pedir, em circunstâncias semelhantes, que fosse de tal modo puro que não nos modificasse como seres humanos e, simultaneamente, melhorasse a nossa condição e a do que nos rodeiam? O stalker representa, portanto, o meta-físico, o escritor o humano, o cientista o racional… As suas ideias e discussões estão na base dos pontos mais interessantes do filme.
O ambiente constantemente sereno (aparte o perigo constante não revelado senão por ideias, pensamentos e frases) consegue introduzir-nos dentro da tela e dar-nos tempo e paz de espírito para pensarmos sobre todo o significado altamente metafórico do filme, mesmo que depois de o visionarmos fiquemos a pensar nele durante muito tempo. Um efeito interessante aqui a notar, a nível cinematográfico, é o uso de um tom visual parecido com sépia para distinguir momentos dentro da zona e fora desta (tal como se vê no início do filme).
Dentro da zona, e após se terem despido mentalmente e exposto a sua alma uns aos outros, após terem confrontado o espectador com toda esta mistura de sentimentos e realidades, chegam à Sala. O fim do filme, uma das melhores sequências de imagem que já tive o prazer de ver, é indiscritível e perfeitamente concebido: Kafka assalta-nos de repente.
Pertence, com tudo isto, a um dos maiores cineastas com que o mundo do cinema nos presenteou e tem honras de situação na minha colecção pessoal. O filme é-nos oferecido assim, misterioso, como o realizador e a sua obra.

